Arquivo para a categoria 'Artigos'

05
nov
10

São Sepé Tiaraju: exemplo heróico guarani

Segundo Antonio Cechin, não se pode falar de Sepé Tiaraju sem falar constantemente do povo guarani das Missões

Por: Patricia Fachin

“Sepé é Santo porque ele nasce num povo organizado e santo. Foi o próprio Jesus Cristo quem disse: ‘Não há maior prova de amor do que dar a vida por aqueles a quem se ama’”. É com esta frase que Irmão marista, Antônio Cechin, define o herói dos guarani e um dos fundadores da Missão de São Miguel, Sepé Tiaraju. Na entrevista a seguir, concedida, por e-mail, à IHU On-Line, Cechin conta a trajetória do líder guarani e sua participação na guerra guaranítica contra os exércitos da Espanha e Portugal. “No dia em que tombou mártir na Sanga da Bica, hoje cidade de São Gabriel, começaram a invocá-lo como santo protetor junto de Deus e herói maior do povo guarani ao longo de toda a sua história”.

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19
jun
10

Manfred Max-Neef e Herman Daly: dois economistas alternativos

IHU Online – 18/06/2010

Manfrede Max-Neef e Herman Daly são economistas comentados no artigo de Marcus Eduardo de Oliveira, publicado pelo EcoDebate, 18-06-2010.

Marcus Eduardo de Oliveira é economista e professor do Depto. de Economia da FAC-FITO e do Depto de Comércio Exterior do UNIFIEO (Centro Universitário FIEO). Mestre em Integração da América Latina (USP) e Especialista em Política Internacional (FESP),com especialização pela Universidad de La Habana – Cuba.

Eis o artigo.

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25
nov
09

“O Fascismo Eterno”

Jornal Pátria Latina – 20/11/2009
Texto de Umberto Eco

Em 1942, com a idade de dez anos, ganhei o prêmio nos Ludi Juveniles (um concurso com livre participação obrigatória para jovens fascistas italianos – o que vale dizer, para todos os jovens italianos). Tinha trabalhado com virtuosismo retórico sobre o tema: “Devemos morrer pela glória de Mussolini e pelo destino imortal da Itália?” Minha resposta foi afirmativa. Eu era um garoto esperto.

Depois, em 1943, descobri o significado da palavra “liberdade”. Contarei esta história no fim do meu discurso. Naquele momento, “liberdade” ainda não significava “liberação”.

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07
out
09

Qué simboliza “la Negra”

06-10-2009 | La Nación – por Alejandro Grimson

La conmoción por la muerte de Mercedes Sosa es también una invitación a la reflexión. Sabemos que “la Negra” fue quizás la voz más impresionante de la historia musical argentina reciente, combinando simplicidad y sofisticación de una manera excepcional.

Sobre esa base artística se imprimen en su nombre, en su cuerpo y en su muerte otros significados culturales que es importante considerar.

Primero, “la Negra” no era negra en el sentido en que esta palabra se usa en otros países, como Brasil y Estados Unidos. “La Negra” era indígena en su ascendencia y en su despliegue musical. Era parte de ese país que no existe en el imaginario tradicional que reza que “aquí no hay negros ni indios”. Quizás una de las personas más visibles y, además, más exitosas de esa porción invisibilizada de argentinos.

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13
ago
09

Telesur – A informação e a cultura como rizoma da integração latino-americana

Artigo produzido pelo pesquisador Elson Faxina publicado no jornal LE MONDE DIPLOMATIQUE/BRASIL, edição de agosto:

A primeira libertação de reféns pelas FARC – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – no comecinho de 2008 já havia introduzido a Telesur, então com pouco mais de dois anos de atividades, no sistema informativo mundial. As imagens da emissora multiestatal, que surge com o lema “Nosso Norte é o Sul”, cruzaram o mundo, com tom próprio e postura divergente do que se costumava ver até então num grande veículo de comunicação. Telesur postou-se de cara na outra margem do fluxo de informações que escorria livre, leve e solto mundo afora; colocou-se na contracorrente da grande mídia comercial.

Um ano e meio depois, a cobertura que Telesur fez antes, durante e pós golpe de estado em Honduras, deflagrado em 28 de junho deste ano, não deixou dúvidas de que a emissora, proposta pelo presidente Hugo Chavez e surgida da parceria entre Venezuela, Argentina, Cuba e Uruguai, já galgou seu lugar na história da informação na América Latina. “O profissionalismo, o patriotismo, o sentido do dever e a responsabilidade com nossos telespectadores se desabrocharam em Tegucigalpa pelo trabalho das equipes da Telesur”, confidenciou-me o cubano Ovídio Cabrera, diretor-geral da emissora. De fato, se Telesur não tivesse feito a cobertura dos fatos em Honduras o mundo não estaria inteirado do latrocínio que se cometeu ali.

Foi uma cobertura singular, de uma TV que assume a postura que tem, que não se esconde no hipócrita e lúgubre escudo da imparcialidade. Havia uma equipe da Telesur no avião do presidente deposto, Manuel Zelaya, que não pode pousar devido à violência dos golpistas, afirma Beto Almeida, diretor de Telesur no Brasil. “E esta é uma das páginas da história da América Latina, que Telesur está ajudando a escrever, com o risco que seus profissionais correm. Onde estava a CNN? Na casa de Michelletti? Onde estavam a Globo e até mesmo a TV Brasil? Dizendo que Zelaya não foi vítima de golpe, que ele é que queria eternizar-se no poder”, ressalta o jornalista brasileiro.

Destacados de outras tantas coberturas, fundamentalmente nos países que sofrem com a postura inconfessa, porém tendenciosa, da mídia comercial, esses dois fatos possibilitaram à Telesur entrar na sua maioridade, ainda antes de completar seu quarto aniversário. Nada mais coerente com a proposta inicial para a qual foi fundada. Nascida em 24 de julho de 2005 – não por acaso aniversário de nascimento de Simon Bolívar – a emissora veio para fazer o papel contra-hegemônico à mídia comercial. “Nosso objetivo é romper o bloqueio midiático que as televisoras privadas, a serviço das oligarquias nacionais e do imperialismo norte-americano tinham e têm sobre nossos povos”, afirmou seu diretor-geral no Fórum Social Mundial em Belém, Pará. Esse domínio informativo, disse ele, faz com que se oculte informações, se manipule e se esconda os problemas fundamentais que enfrentam hoje nossa sociedade. E é o modelo seguido à risca pela grande mídia comercial no continente.

É com esse propósito que Telesur define sua programação e prioriza suas transmissões especiais. “As coberturas sobre o conflito colombiano e no caso Honduras têm sido especialmente marcantes, porque oferecem uma oportunidade para mostrar distinção em relação à mídia comercial”, afirma Efendy Maldonado, jornalista equatoriano radicado no Brasil, doutor pela USP e professor de pós-graduação da Unisinos, no Rio Grande do Sul. Para ele, são decisivas também as coberturas sobre os processos políticos de mobilização e apoio popular aos processos de mudança, tanto em termos constitucionais quanto na realização de projetos concretos como a ‘operação milagre’, que já livrou da cegueira gratuitamente dezenas de milhares de latino-americanos, e dos processos de alfabetização, que levaram a Unesco a decretar Venezuela e Bolívia territórios livres do analfabetismo. É “a desmontagem das coberturas distorcidas das mídias comerciais”, destaca Maldonado.

Rede latino-americana, mas o Brasil resiste

Com sede em Caracas, Venezuela, Telesur se consolida como uma rede latino-americana de comunicação que conta hoje também com a participação da Bolívia, Nicarágua e Equador, e novos países devem integrar-se em breve, como é o caso do Paraguai. O Brasil resiste a integrar a rede, e isso tem a ver, segundo o cientista político, professor e pesquisador da USP, Rafael Duarte Villa, “primeiro, com a falta de visão estratégica do governo brasileiro sobre a importância de um canal de TV estatal para firmar a ideia da integração, como a Europa Ocidental entendeu há muito tempo. Sem comunicação não há processo possível de integração política, econômica e social”. Um segundo aspecto que pode explicar a posição do governo brasileiro é que a Telesur tem uma imagem muito vinculada ao governo da Venezuela, “e então outros fatores, como a suposta disputa pela liderança sul-americana, entraram em cena”, diz Rafael.

Contudo, decidida a irradiar-se por todo o continente, Telesur assinou convênios no Brasil com a emissora público-estatal comandada pelo governador Roberto Requião, a TV Paraná Educativa, bem como a TV Cidade Livre, que é o canal comunitário de Brasília. Esta transmite com freqüência o sinal direto de Caracas, como foi o caso da cobertura do golpe de estado em Honduras. Já a Paraná Educativa, presente nacionalmente pelo canal 115 da Sky e captada por antena parabólica em toda a América Latina, trabalha em duas frentes. Desde fevereiro de 2008 retransmite de segunda a sexta-feira, das 19h45 às 20h15, o Telesur Notícias, um telejornal dublado ao português, por uma equipe de jornalistas brasileiros na Venezuela. Trata-se de um olhar diferenciado, com notícias pouco vistas nas emissoras comerciais, e quando vistas trazem um outro foco. “Só agora eu comecei a me dar conta de como a gente é ignorante sobre o que acontece na América Latina”, diz Deoclécio de Lima, de Betim, Minas Gerais, ao ironizar: “Primeiro eu vejo a Telesur, e em seguida (às 20h15 começam os telejornais de duas grandes emissoras nacionais) vou ver o que os outros dizem de mentira ou escondem de nós”. Deoclécio, sem saber, confirma o que disse o jornalista argentino Carlos Aznárez, ao referir-se a Telesur durante o Encuentro Latinoamericano vs Terrorismo Mediático: “os que têm a sorte de acessar este canal podem inteirar-se, por simples dedução e comparação de textos e imagens, quanto e como nos mentem diariamente a cadeia do terrorismo midiático”[i]. Para ele, Telesur veio para trazer ares novos dentro de tanta atmosfera contaminada, e “nesse curto tempo de existência (na época com apenas dois anos e oito meses) já deu boas mostras de que ouvir as outras vozes e difundir a informação que os meios convencionais ocultam servem para ir erodindo aos poucos o muro do discurso único”.

Talvez aqui se encontre o maior serviço que Telesur vem prestar ao jornalismo latino-americano. Essa programação comprometida com certas linhas de pensamento, políticas de Estado e práticas econômicas e sócio-culturais, voltadas aos mais necessitados, vem exatamente expor as mentiras implícitas, transvestidas de verdade, com que o jornalismo de mercado se consolidou nas últimas décadas. Ao assistir Telesur e compará-la à televisão privada, impossível não lembrar de A roupa nova do imperador, de Hans Christian Andersen, e gritar, em vez do rei, que “A rainha está nua”. São eclodidas as três grandes mentiras que revestem a entronada mídia privada: imparcialidade, isenção ideológica e sinonimia de mídia privada e mídia livre.

Aliás, nada mais ideológico do que a negação peremptória da ideologia. “Todo discurso tem ideologia, inclusive o científico”, reitera o pesquisador Efendy Maldonado. Toda comunicação, não importa qual, expressa um conjunto de ideias, resta saber quais são elas e a que cosmovisão atende. Para Rafael Villa, o discurso hegemônico da mídia comercial é a predominância da ideia de que a mídia deve refletir os valores políticos da democracia liberal do ‘mundo livre’. Esta é uma visão tão equivocada quanto autoritária, diz ele, porque “de antemão já etiqueta os que fazem um ‘jornalismo legítimo’ – os que refletem os valores do mundo livre – daqueles que não o fazem – o resto. Assim a mídia trabalha com uma missão e vocação política, não com uma função pública e pluralista, que nega a própria essência pluralista da palavra livre”.

A malha de Telesur

Apesar da tenra idade, Telesur é hoje uma rede que tem correspondentes em quase todos os países da América Latina, além dos Estados Unidos. Firmou parceria com umas três dezenas de emissoras de várias partes do mundo, entre elas a TV Al-Jazeera, do Qatar. Seu sinal está na Venezuela e em diversos canais na Argentina, Bolívia, Cuba, Uruguai e Madri, na Espanha, e começa a chegar ao Equador e Nicarágua, além do Brasil e pode ser acessada por antena parabólica e no sítio http://www.telesurtv.net. Contudo, a dificuldade de acesso por seu público preferencial ainda é um desafio que tira o sono da direção de Telesur e precisa ser superado.

Na realidade, este não é um problema exclusivo de Telesur, mas um desafio posto há muito tempo para todas as TVs público-estatais. No Brasil, por exemplo, a ironia é enorme. Foi com recursos públicos que a principal TV privada pode montar uma malha de distribuição de sinal, que a possibilita estar há tempos nos mais longínquos grotões do país. Esta sempre foi a lógica brasileira: expandir as redes privadas com recursos públicos. Não à toa, passa de um bilhão e meio de reais o investimento anual do governo federal, envolvendo a administração direta e indireta, na mídia comercial. Os argumentos objetivos são muitos: anunciar seus feitos e produtos; já os subjetivos… Fato é que o governo federal titubeia até hoje em estabelecer uma malha de transmissão de sinal que permita sua televisão público-estatal atingir os quatro cantos do país! Aliás, nem sequer compromete as TVs a cabo a veicular a TV Brasil em sua malha nacional.

Contudo, nada de reclamar. Nas hastes de Telesur a consigna é revelar outras verdades, outra versão dos mesmos fatos, difundir outros acontecimentos, importantes embora ignorados pela grande mídia comercial. A percepção clara é a de que uma integração latino-americana não se dará unicamente pelos acordos oficiais que se firmam a cada nova reunião. Depende de que esses povos queiram integrar-se, e isso só é possível a partir da construção de uma cultura de integração. E numa sociedade cada vez mais midiatizada a ação dos veículos de comunicação é crucial na construção de uma nova auto imagem no próprio continente. Afinal, não se pode querer o que não se conhece ou o feio, o porcalhão, o maltrapilho, o atrasado, o indigente, o pouco sério. E a cobertura da mídia comercial, na opinião de Efendy Maldonado, é muito prejudicial ao nosso continente. “As pesquisas sistemáticas que temos feito durante duas décadas mostram o caráter destruidor, preconceituoso, racista, redutor e xenofóbico de boa parte da produção comercial sobre América Latina. A negação da alteridade e de um projeto comum para nossa América, promovendo a subserviência ao poder estadunidense, tem sido o modelo da produção midiática sobre a região”. Para ele, os discursos dessa mídia apresentam as nações vizinhas como inimigas. “Para os brasileiros, os bolivianos, paraguaios e argentinos são vistos como contrabandistas, traficantes, aproveitadores econômicos; para os colombianos, os equatorianos e venezuelanos são representados como cúmplices do ‘terrorismo’. Em toda a América Latina o modelo é similar e segue a lógica da separação, da negação, da destruição simbólica do outro. Isso é gravíssimo e a Telesur é imprescindível para mudar essa realidade midiática”.

O cientista político Rafael Duarte Villa destaca que essa cobertura é perpassada pela visão político-editorial das emissoras, e que se trata de uma cobertura que “carece de qualidade na medida em que é feita ainda, na maior parte dos casos, na base de um jornalismo que pesquisa pouco e de achismos absurdos”, o que leva a uma combinação nociva de comunicação enviesada e formação de opinião pública espúria e imprecisa.

Nosotros, si, podemos!

Essa negação do continente através da sonegação de informações importantes e deturpações de fatos sobre a América Latina é a tônica da mídia comercial. O povo latino-americano não só desconhece os milagres da ‘operação milagre’ e do programa de alfabetização “Yo, sí, puedo’, como desconhece que a Bolívia já recuperou grande parte da soberania sobre sua própria riqueza; que o Equador fez o mesmo e ainda realizou uma auditoria de sua dívida externa e já economizou mais de dois bilhões de dólares, cobrados irregularmente, além de determinar a retirada da base norte-americana de Manta, reassumindo sua condição de país soberano. De fato, se dependermos da mídia privada não conheceremos estas e outras infinitas conquistas e verdades sobre nossa América. Antes ficaremos achando que Chavez, eleito democraticamente, é um ditador, e Felipe Calderón, cuja eleição foi fruto de fraude eleitoral[ii], é presidente inconteste do México.

É para dar respostas a essas demandas por uma comunicação com cara e sotaque latino-americanos que a Telesur se muniu de equipamentos de última geração e montou uma grade de programação variada, mas tendo como marca forte noticiários e documentários de todo o continente. De hora em hora há boletins atualizados com informações internacionais e foco principal na América Latina. O lúdico também está presente, numa programação diária salpicada de esportes e manifestações culturas latino-americanas, ao que se somam filmes e documentários próprios e de produtores independentes. Ovídio Cabrera diz que uma das coisas mais importantes para a equipe de Telesur, com cerca de 500 profissionais, é a moral de defender uma causa justa, dos mais humildes e despossuídos, de dizer a verdade, sem ocultar nada, dando as várias versões de um mesmo fato, e suficiente voz aos agredidos, aos explorados, aos que nunca puderam falar e denunciar, aos que sempre lhes foi vedado esse direito.

O fato é que uma TV público-estatal, ou multiestatal como é Telesur, é condição para se construir uma democracia de fato. Para Efendy Maldonado, Telesur é uma garantia de informação mais democrática. “A exclusividade da informação, o controle hegemônico tem um contraponto, um espaço e uma produção que oferece alternativas de verdade, de humanidade, em face de uma cultura da violência exorbitante nos meios comerciais”. Ovídio lembra, no entanto, que “tudo o que fazemos não é a partir de um olhar alternativo. É uma visão própria, real, balanceada, de justiça social, que interpreta não os grandes interesses senão os interesses dos povos”.

Nessa empreitada latino-americana Telesur tem apoiado novas experiências de TV Público-estatal. Bolívia, Equador, Nicarágua e proximamente Paraguai são alguns exemplos. São novas iniciativas que estão se consolidando num sistema público de televisão estatal, afirma Beto Almeida ao questionar: “Quais são as iniciativas que podem ser feitas sem o apoio, a participação direta, a sustentação e a relação com o Estado, e que sejam de natureza democratizadora? Onde é que o mercado está possibilitando democratização da cultura e da informação?”.

‘Telesur vai bem, obrigado’, mas os desafios ainda são muitos: aprimorar a qualidade dos conteúdos e imagens; expressar na programação as culturas, valores, interesses e sonhos de emancipação dos povos latino-americanos, visando à construção de um futuro promissor e livre de toda forma de império. Rafael Villa acredita também que Telesur precisa firmar-se para além de conjunturas de governo e Efendy Maldonado destaca a necessidade de a emissora apreender dos processos históricos e dos conhecimentos comunicacionais para tornar-se componente vital da cotidianidade latino-americana, “penetrando nas mentes e corações de modo respeitoso e solidário”.

Mas para uma emissora com apenas quatro anos de existência, pode-se dizer que Telesur já foi bem longe, dando mostras de que veio para ficar, e incomodar.


[i] Carlos Aznárez. Encuentro Latinoamericano vs Terrorismo Mediático. 2008, p. 128. O livro traz as exposições dos participantes do encontro de jornalistas e pesquisadores da América Latina, em Caracas, Venezuela, dias 27 a 30 de março de 2008, data em que se realizava, também ali, uma reunião da Sociedade Interamericana de Imprensa –SIP. Tradução livre.

[ii] Ver filme Fraude, México, 2006, de Luis Mandoki.

18
mar
09

Ditadura: nunca mais!

No curso da democratização da sociedade brasileira, tem sido mais fácil supor que aqueles 21 anos de ditadura foram obra de um punhado de militares alucinados em combate a grupelhos de comunistas malucos, sem que a maioria da sociedade estivesse comprometida com o que passou. Será?

Já se disse que a obra de Gaspari sobre a ditadura teria iniciado um período de revisão historiográfica que recuperaria a importância da ação política dos militares. Por outro lado, ela traz provas de que o extermínio de opositores armados foi uma política de Estado. Polêmicas à parte, Gaspari foi feliz nos títulos da coleção: “Ditadura Envergonhada” , “Ditadura Escancarada” , “Ditadura Encurralada” e “Ditadura Derrotada”. Ou seja, em diferentes fases e com variações institucionais, sempre foi uma ditadura.
Em 1964, um golpe militar e civil -exigido por segmentos expressivos de uma parte da sociedade- derrubou um governo constitucional, que era apoiado por outros setores sociais significativos. Prisões, intervenção em sindicatos e movimentos populares, cassações, expulsão de funcionários civis e militares de seus cargos, abertura de inquéritos policiais militares, toda sorte de violência e humilhação contra os adeptos do governo deposto. Em outubro de 1965, o Ato Institucional nº 2 veio ratificar o caráter do regime: além de dar poderes ditatoriais ao presidente, extinguia os partidos existentes e determinava eleições indiretas para a Presidência da República. Era pleno governo Castello Branco, bem antes do Ato Institucional nº 5, que fecharia de vez o regime em dezembro de 1968.

Mas havia um paradoxo: a ditadura foi instaurada em nome da democracia, supostamente ameaçada. Nunca se assumiu como ditadura, no máximo como “democracia relativa”.

Manteve-se uma fachada democrática: o Congresso funcionando (apesar da imposição do bipartidarismo, de cassações e fechamentos de tempos em tempos, do Pacote de Abril em 1977 e de outros constrangimentos) , o julgamento de prisioneiros políticos (ainda que na Justiça Militar e sob leis draconianas -sem contar as torturas e as mortes à margem da lei), a vigência de uma Constituição, mesmo com os limites daquela de 1967, “reformada” em 1969.

Ao contrário do que inicialmente pensaram seus adversários, a ditadura não impôs um projeto “arcaico”, mas, sim, de modernização da sociedade. Não pelo viés do capitalismo de massas, sonhado por Celso Furtado e outros nacional-desenvolvi mentistas antes do golpe. Houve um processo de modernização autoritária, ou seja, os governos militares promoveram o desenvolvimento, embora à custa do cerceamento das liberdades democráticas e com grande concentração de riquezas.

Outro paradoxo: a modernização exigia profissionais capacitados -e muitos deles eram de oposição. Foi assim que amadureceu, por exemplo, uma indústria cultural digna desse nome sob a ditadura, que, com um braço, incentivava a cultura, censurando-a com o outro. Professores incômodos eram afastados, ao mesmo tempo em que se financiavam a pesquisa e a tecnologia, até no meio universitário mais hostil ao regime.
A universidade, como todas as instituições -inclusive a imprensa-, é repleta de histórias de colaboração com a ditadura e de resistência a ela.

Por exemplo, o ministro da Justiça -que em 1969 aposentou compulsoriamente mestres como Florestan Fernandes e Vilanova Artigas- era nada menos que Gama e Silva, reitor afastado da USP para exercer o ministério. O protesto do reitor em exercício, Hélio Lourenço de Oliveira, custou-lhe a aposentadoria, junto com nova leva de docentes -entre eles, Fernando Henrique Cardoso. Muita gente de oposição seguiu na universidade e nem por isso se acovardou.

A ditadura remete à tradição autoritária das elites, ao positivismo e a toda uma história nacional. Esses aspectos lhe deram peculiaridade desenvolvimentista em relação às demais ditaduras no Cone Sul, ainda mais cruéis, até porque enfrentaram maior resistência. Mas foi uma inspiração para as vizinhas, irmanadas em operações repressivas como a Condor. Ou teria sido coincidência a avalanche ditatorial na América Latina nos anos 1960 e 70, em plena Guerra Fria? Há, não só no Chile, quem pense que Pinochet foi um mal necessário.

Reconhecer que a “ditadura à brasileira” teve ambiguidades e fases distintas -envolvendo um complexo jogo de forças políticas e militares e tendo desempenhado um papel modernizador- não a torna menos ditadura. Está na hora de nossa democracia ganhar maioridade e constituir uma Comissão de Verdade e Justiça para acertar as contas com o passado.

MARCELO RIDENTI , 49, é professor titular de sociologia na Unicamp. É autor, entre outras obras, de “Em Busca do Povo Brasileiro, Artistas da Revolução”.
01
jul
08

Mídia e Mílicia

Foto: Marco Fernandes

Escrito por Ivana Bentes, pesquisadora de cinema, audiovisual e arte da Escola de Comunicação da UFRJ. Texto publicado na revista Carta Capital.

 

É grave um jornal ou jornalistas serem chantageados, torturados, tolhidos em sua função de investigar, mas ninguém se pergunta porque na ficção a novela das oito que terminou, Duas Caras, mostrava uma favela bem resolvida sob o comando de uma “milícia do bem”, romantizada e glamourizada na figura de Antonio Fagundes, o Juvenal da Portelinha, líder da “milícia legal” que seriam “diferentes” dos milicianos que torturaram e expulsaram jornalistas da favela do Batan, em Realengo, aqui no nosso Rio de Janeiro.

Mas afinal o que tem em comum a Mídia e a Milícia? Não podemos esquecer que a mídia hoje é uma espécie de “primeiro comando simbólico da capital”. É identificada como um lugar de poder, que pode se usar tanto para aprofundar a democracia quanto para golpeá-la. Não só a milícia pratica a ilegalidade, como também a própria mídia, hoje, atua nessa zona obscura entre o legal/ilegal, ético/anti-ético, utilizando métodos policiais como as câmeras escondidas e grampos telefônicos, nas suas “investigações”, nem sempre neutras ou desinteressadas.

Essa invasão da privacidade, segundo o contexto, pode ser tão grave quanto outras aberrações, como a tortura. A sociedade deve questionar tanto os métodos policiais quanto os midiáticos, colocar em questão o corporativismo da polícia, da mídia e da milícia.

A importância dada ao debate acerca da segurança dos jornalistas e da liberdade de imprensa não deveria obscurecer a crueldade da disseminação da tortura policial, real ou simbólica, subjetiva. Práticas de ostentação de poder que podem afetar qualquer um.

Quando a vítima de tortura é o cidadão comum, que não faz parte dos círculos do poder simbólico, como os jornalistas, não encontramos o mesmo nível de indignação. Pouco se fala sobre o morador que também sofreu com os atos de tortura e se encontra desaparecido. Na mídia, a fonte primordial de informações sobre as favelas, ainda é a própria polícia, o que só complica, quando a policia se mistura com as milícias ou a mídia virá lugar de negociação e produção de crise e de poder. Continuar lendo ‘Mídia e Mílicia’

19
jun
08

Jesús Martín-Barbero propone nuevas formas de investigar la comunicación y la cultura

Texto: Núria Reguero
Foto: Divulgação

El teórico de la comunicación y autor de De los medios a las mediaciones (G. Gili, 1987), Jesús Martín Barbero propone claves para la investigación en comunicación y cultura invitado por la Cátedra Unesco de Comunicación InCom-UAB, el 8 de mayo en la Fundación Cidob.

¿Cómo investigar las políticas culturales y de comunicación sin toparnos con lo que está sucediendo en la política? ¿Cómo pensar juntas la comunicación y la cultura cuando las instituciones las separan de forma radical? Con estas interrogaciones iniciaba el profesor emérito de la Universidad Javeriana de Bogotá Jesús Martín Barbero un seminario para investigadores en políticas de la cultura y la comunicación.

El experto anima a estudiar las construcciones simbólicas del sentido y a diluir la dicotomía que supone pensar la cultura como la dimensión auténtica o la expuesta en los museos, y la comunicación como la dimensión liviana o el plagio.

Sus líneas de investigación huyen del determinismo tecnológico y del pesimismo cultural: “Hay que investigar lo que nos dé esperanza, y como dijo Benjamin, la esperanza se nos da a través de los desesperados: hoy hay muchos desesperados en América Latina con gran imaginación y buscando una transformación radical de lo que es hacer política”, afirmó.

Martín Barbero propone investigar los cruces entre las dimensiones de cuatro agentes principales: lo público, las industrias, el mercado y el tercer sector o sector independiente, donde crece la creatividad. “Lo público ha sido fagocitado por lo estatal provocando la decadencia de lo social y de su heterogeneidad. Ante medios de comunicación ventrílocuos necesitamos políticas que permitan la expresión de otras voces. El desafío fundamental de las políticas públicas es plantearse la heterogeneidad de lo social”, advirtió.

Por lo que respecta a las industrias culturales, el experto insta a no confundirlas con la legitimidad del mercado: “La industria no es un puro producto del mercado sino que también se constituye desde la política”, afirmó. Y considera muy pertinente trasladar al campo de la cultura el concepto de desarrollo sostenible. En este sentido, calificó a las convenciones de la Unesco como “textos sin dientes” en la medida que carecen de capacidad de interpelación con el Banco Mundial y el Fondo Monetario Internacional.

Jesús Martín Barbero también sugirió pensar las temporalidades de los procesos culturales. Por ejemplo, desde la capacidad de las colectividades culturales para negociar en los ámbitos que les afectan; así como desde los relatos identitarios: “Una cultura sólo es tenida en cuenta por otra si la otra no sabe contarse, la identidad no es un hecho sino un relato. Las culturas permanecen vivas mientras se comunican entre ellas, siendo la comunicación una dimensión constitutiva de la vida cultural y no sólo su exhibición”, arguyó.

Por último, el profesor y asesor político insta a estudiar el tercer sector de la comunicación como proceso relacionado con la vitalidad de la cultura: “No podemos investigar los medios de comunicación comunitarios fuera del nuevo paradigma de la comunicación: la red, la interfaz o los nodos, en contraposición al paradigma de Shannon de emisor-mensaje-receptor”, explicó. Para Barbero, los medios de comunicación comunitarios son un agente social que piensa su lugar y lo transmite, generando procesos de ciudadanía y creando tejidos que suponen una reinvención de la democracia.

22
abr
08

Assassinato como espetáculo

Arte e foto: Bruno Alencastro

Escrito por Carlos Alberto Di Franco, professor de Etica e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra. Publicado no jornal O Estado de São Paulo, do dia 21 abril de 2008.

 

Poucas horas após a polícia afirmar que o assassinato da pequena Isabella Nardoni, de 5 anos, estava “70% esclarecido”, o pai e a madrasta da menina – que haviam passado nove dias na cadeia – foram libertados por ordem judicial. Alexandre Alves Nardoni, de 29 anos, e sua mulher, Anna Carolina Trotta Peixoto Jatobá, de 24, ao serem soltos, foram, ambos, protegidos por escolta policial.

A saída de Alexandre do 77º Distrito Policial (DP) – no Bairro de Santa Cecília, centro da cidade de São Paulo – foi presenciada por cerca de 200 pessoas, que gritavam “assassino” e “lincha”. Anna Carolina, que estava no 89º DP (Portal do Morumbi, na zonal sul), também foi hostilizada por curiosos na porta da delegacia. “Pena de morte”, “assassina” e “cadeira elétrica” eram alguns dos gritos mais comuns.

Com as televisões e as rádios informando a todo tempo o trajeto de Anna Carolina Jatobá e de Alexandre Nardoni, das delegacias ao Instituto Médico Legal, uma multidão se foi formando em frente ao local.

“Morre, desgraçado, covarde”, gritava um transeunte. “Também acho que foi a madrasta”, dizia outro. Irritava-se a platéia de curiosos, que pouco via além dos logotipos das emissoras nas costas dos cinegrafistas e do espocar dos flashes dos fotógrafos.

O bárbaro assassinato da pequena Isabella desencadeou um forte e compreensível desejo social de punição. Alguns policiais, armados de precipitação e sede de notoriedade, acabaram pautando a opinião pública e a própria mídia. Quando o pai de Isabella, um dia depois do crime, saía do distrito policial onde prestara depoimento, uma delegada presente no local dirigiu-lhe gritos de “assassino”. A encarregada do inquérito, num procedimento surpreendente, informou à imprensa a respeito dos níveis porcentuais já atingidos no esclarecimento do caso. A loquacidade inicial do promotor, intensa e diária, mereceu reparos do Judiciário. As autoridades, de fato, armaram o espetáculo e alguns setores da mídia, sobretudo certos telejornais, entraram em cheio no crime do ano. A repetição exaustiva de cenas garantiu, certamente, uma bela audiência. Não sei se garantirá a credibilidade. Os jornais têm sido razoavelmente sóbrios, mas a televisão tem forçado a mão. Continuar lendo ‘Assassinato como espetáculo’

17
abr
08

Fortalecer el campo público de la comunicación para combatir el terrorismo mediático

Texto: Beto Almeida
Foto: Divulgação

Beto Almeida, periodista brasileño
Presidente da TV Cidade Livre de Brasília
Ancla de la TV Paraná Educativa
Miembro de la Junta Directiva de Telesur
Miembro del Consejo Editorial del Periódico “Brasil de Fato”
Caracas, marzo de 2008


Ya no se discute más se existe o no el terrorismo mediático. Después que la humanidad comprobó, espantosamente, hasta donde pueden llegar los poderosos conglomerados privados mediáticos, cuando han creado un clima de terror en la opinión pública mundial, a partir de la falsa noticia de que habían armas de destrucción masivas en Irak, para justificar la ocupación y destrucción criminales de aquél país, haciendo correr allí tanta sangre en la misma proporción de la cantidad de petróleo que rapiñan, ya no hay más dudas; ya se puede esperar las acciones más inescrupulosas y sanguinarias de los que practican el terrorismo mediático.

Esta degeneración comunicacional es parte de la naturaleza misma de los medios de comunicación organizados en forma de oligopólios y cada vez más como reflejo de la inevitable concentración del sistema capitalista. O sea, no es posible creer en alguna posibilidad de civilidad, de corrección o de humanización de ese sistema comunicacional prisionero de la lógica del mercado cartelizado en una fase imperialista del sistema capitalista, cuya esfera de actividad más dinámica y lucrativa es la industria bélica. La vinculación y fusión cada vez mas profundizada de los medios de comunicación con esta industria bélica se comprueba con el control ejercido por los anunciantes sobre los medios; anunciantes que en su mayoría son empresas transnacionales desde siempre involucradas en las acciones de desestabilización de gobiernos democráticos y progresistas en todas partes.

El terrorismo mediático contra Vargas

La experiencia de Brasil con el llamado terrorismo mediático es trágica. Getúlio Vargas, que presidió el pais en una etapa en que más se nacionalizó la economía, que creó leyes que han favorecido los trabajadores, que hizo surgir la universidad pública, y dio gran incentivo a la educación pública y gratuita, inclusive haciendo nacer la Radio Nacional – emisora pública capaz de practicar una comunicación de contenidos verdaderamente nacionales, con grande repercusión popular -, sufrió en la carne por sus posiciones nacionalistas y antiimperialistas. Exactamente 30 días después de haber firmado la Ley que creaba la Petrobrás, Vargas fue llevado al suicidio en 24 de agosto de 1954 bajo presión de una fuerte campaña terrorista mediática que hablaba noche y día de un “Mar de Lama” en su gobierno. Vargas había creado la radio pública, pero había cometido el error de permitir que la televisión naciera privada en Brasil, inmediatamente asociada a los intereses económicos extranjeros, que jamás han aceptado la nacionalización del petróleo, de las riquezas minerales, las leyes de protección al trabajador, y que estaban determinados a no permitir que su gobierno siguiera adelante. El cerco mediático, de TV, radio y periódicos fue determinante para desmovilizar la población, para crear un clima de terror, llegando al ápice con el supuesto “atentado de la Calle Toneleros”, cuando un mayor de la Aeronáutica, seria asesinado por “francos tiradores” (“matones”) que la campaña del terrorismo mediático inmediatamente apuntaló como siendo agentes de Vargas, lo que jamás se ha efectivamente comprobado.

Vargas tenia consigo solamente la Radio Nacional de Río de Janeiro y el periódico “Última Hora”, diário popular y de grande tirada, dirigido por el periodista nacionalista Samuel Wainer, también blanco de la campaña del terrorismo mediático, acusado de ser judío. Contra él estaban unidos todos los demás medios de comunicación, las transnacionales, la oligarquía, y la incomprensión del Partido Comunista que, en titulares de su periódico en la edición de aquél 24 de agosto, también llamaba, junto con todos los periódicos controlados por el gran poder económico, la renuncia de Vargas. Con un tiro en su corazón Vargas despertó la indignación del pueblo brasileño, que salió a las calles y empasteló los medios de los golpistas y incluso el equivocado periódico de los comunistas que también reivindicaba la renuncia del presidente. supuestamente desde un punto de vista de la izquierda. Se hizo una acción popular fulminante que aplazó por 10 años la dictadura militar, que solamente comenzaría de hecho en 1964. Continuar lendo ‘Fortalecer el campo público de la comunicación para combatir el terrorismo mediático’




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